
Quando...
No palco apenas três cadeiras de madeira, luz fraca. Duas das cadeiras estão de lado para a platéia, uma de costas para a outra. A terceira está no centro posicionada pouco à frente. Em cada cadeira está sentada uma mulher. São bem parecidas e vestem um vestido preto surrado pelo tempo. As roupas estão envelhecidas de acordo com a idade de cada mulher. A mulher da esquerda está com um livro na mão, a da direita tem uma carta. A terceira tem uma foto, mas existe embaixo de sua cadeira um livro com uma carta em cima.
Terceira (Mulher do centro): Meu filho, que falta eu sinto, faz alguns anos que saiu de casa. Primeira (Mulher da esquerda): Meu Pai, saiu, disse que precisava sair de férias, não entendi o porquê.
Segunda (Mulher da direita): Meu marido, quando acordei não o vi do meu lado.
Primeira: Ele me deixou este livro (Levanta o livro à altura de seus olhos) disse: “Leia, querida, quando eu voltar falaremos sobre ele”.
Segunda: Tinha uma carta do lado da cabeceira da cama, apenas com as palavras (levanta a carta à altura dos olhos): “Eu te amo, me espere”.
Terceira: Só me resta um retrato, de quando ele completou dezoito anos, se não fosse por isso, já teria esquecido o rosto dele.
As Três: Eu estou esperando por ele (colocam cada uma a mão esquerda no queixo)
Segunda: Eu estou...
Terceira: Grávida, quando meu pai me deixou...
Segunda: Sim, Grávida, meu filho será lindo como o...
Terceira: Pai, ele tem a mesma personalidade e ideologia do...
Primeira: Pai, por aonde andas nesses tempos difíceis?
Terceira: Meu filho se chama...
Segunda: Romeu, vou chamá-lo assim em homenagem...
Primeira (Olhando o livro): Meu pai adorava este livro, (lê o nome na capa) Romeu e Julieta.
(Silêncio. As três olham respectivamente para o livro, a carta e o retrato. Forte suspiro das três, tudo isso ao mesmo tempo).
Primeira: Preciso de algum para cuidar de mim, meu pai não voltou, não vai voltar. Li este livro muitas vezes.
Segunda: Romeu já está enorme, pena o pai não o conhecer, os dois são muito parecidos.
Terceira: Me sinto cansada, a foto já está desbotada. Já esqueço o rosto de meu filho, assim como esqueci o de meu pai e o de meu marido. Começo a me dizer: Julieta, a morte virá mesmo que você não a espere.
Escrito por Filipe Dias às 02h43
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Como detesto isso
Homem: Meu carro quebrou, hoje não é o meu dia, tenho que ir de trem...
Outro: (escuta)
Homem: Detesto esse trem, detesto pegar trem , destesto lugares preferenciais, esses malditos acentos cinzas: está vazio, mas é só eu me sentar e abrir o livro que logo aparece alguém...
Outro: (concorda)
Pausa
Homem: Olha lá, uma grávida, até que é bonitinha, e uma velha. Tenho que dar lugar para uma das duas. Como detesto isso!
Outro: (só escuta)
Homem: Vou dar o lugar para a grávida, é claro, pois sou um bom sujeito. Ela tem uma vida na barriga, na certa tem de trabalhar dobrado, porque o pai já deve estar bem longe... Esperto, muito esperto.
Outro: (...)
Homem: A velha só atrapalha a vida dos outros, apenas adiam a sua morte: posso ler o epitáfio nos olhos dela. Droga! Espero que ela desça na próxima estação, que não babe em meu terno novo ou algo assim. Detesto essas senhoras com cheiro de hospital e água sanitária. É para não ver essas coisas que ajudo instituições, uma vez a cada dois meses, porque sou um homem bom. Mais do que isso é caridade, e caridade não é vista com bons olhos por Deus, é como se você estivesse querendo enganá-lo.
Outro: (...)
Homem: Como detesto tudo isso! (Pausa) Mas tem uma vantagem, pegue o trem e seja livre de seus pecados: todo mendigo sujo que aparece, sempre com o mesmo discurso, te abençoa, você dando dinheiro ou não.
Outro: (...)
Homem: O trem... Poderia escrever uma tese sobre um dia no trem, por que não uma monografia? Peguei-o poucas vezes mas já pude notar o quão ridículas são as pessoas que andam de trem. Que vidinha medíocre... Tenho de descer aqui.
Por Filipe Dias
Escrito por Filipe Dias às 13h39
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Durma bem...
Pedi esta noite para que os anjos cantassem, cantassem algo para me fazer dormir, entorpecer. Eles cantaram. Eu? Perdi o sono, queria dormir docemente esta noite, apenas uma vez, um minuto que seja, quero sonhar, ir onde não posso, ter sensações desconhecidas nem que seja por um minuto, mas não durmo e nem sonho, só observo, o que é permitido observar.
Esta hora da madrugada velas iluminam a escadaria de uma grande catedral, cada uma com um sonho, um pedido e a mesma esperança. Pela manhã todos esses sonhos serão jogados em uma sexta de lixo, a escadaria será lavada, e a água, levará as sobras daquilo que na madrugada foi um pedido, e agora são apenas restos de cera no chão.
Seria isto a purificação da esperança? Ou o fim dela? Mas até onde...ah isto não importa, é apenas um senhor lavando uma escada, nada mais, não há culpa nenhuma nisto.
São tantas as vidas que passam por aqui, passam, desaparecem e são esquecidas, todas elas com um significado, um ideal, uma meta e pouca conquista, algumas chamam a atenção, por quererem ser algo que não são, outras não tenho certeza de sua existência.
Já disseram que não há caminho para a felicidade, mas que a felicidade é o caminho. Pensando neste ponto, isto não adianta muito porque as pessoas agora procuram o caminho que leva até este caminho. Antes que digam que sou uma pessoa infeliz, não sou, apenas sei da miséria que o mundo sofre, miséria no sentido de que a cada segundo a humanidade se reflete nela própria, e se apaixona, não vê defeitos. O perigo é que estamos cada vez mais próximos desse espelho, um dia estaremos no fundo do lago e de nós não surgirão belas flores.
Filipe Dias 12/09/2006
Escrito por Filipe Dias às 15h33
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Sao paulo

O Poeta que não fui...
Eu!?Eu queria um dia poder ser poeta, meus pais diziam que poesia era coisa de desocupado. Com o passar dos anos, abandonei esse sonho, e fui ser o que nasci para ser: Caixa de supermercado, fui evoluindo, hoje sou segurança, do mesmo supermercado. Em meu cotidiano sou uma máquina: acordo 6 da manha, dou uma risadinha pro espelho e vou trabalhar, sou muito importante no que faço: Ficar parado 12 hrs por dia 6 dias por semana. Mas esta metrópole agitada e monótona, um paradoxo diario de vidas, não notamos ninguem, onde somos apenas vultos sob a garoa noturna, azul e triste, tenho o prazer de ter minhas folgas de Domingo e saber que farei o que faço em todas minhas folgas: Churasco e futebol com os amigos, conversamos os mais variados assuntos: Futebol e Mulher (Ca pra nos, meus amigos são tão previsiveis). Fico me perguntando como seria minha vida se eu fosse poeta...
Filipe Dias
Escrito por Filipe Dias às 11h44
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