
Como detesto isso
Homem: Meu carro quebrou, hoje não é o meu dia, tenho que ir de trem...
Outro: (escuta)
Homem: Detesto esse trem, detesto pegar trem , destesto lugares preferenciais, esses malditos acentos cinzas: está vazio, mas é só eu me sentar e abrir o livro que logo aparece alguém...
Outro: (concorda)
Pausa
Homem: Olha lá, uma grávida, até que é bonitinha, e uma velha. Tenho que dar lugar para uma das duas. Como detesto isso!
Outro: (só escuta)
Homem: Vou dar o lugar para a grávida, é claro, pois sou um bom sujeito. Ela tem uma vida na barriga, na certa tem de trabalhar dobrado, porque o pai já deve estar bem longe... Esperto, muito esperto.
Outro: (...)
Homem: A velha só atrapalha a vida dos outros, apenas adiam a sua morte: posso ler o epitáfio nos olhos dela. Droga! Espero que ela desça na próxima estação, que não babe em meu terno novo ou algo assim. Detesto essas senhoras com cheiro de hospital e água sanitária. É para não ver essas coisas que ajudo instituições, uma vez a cada dois meses, porque sou um homem bom. Mais do que isso é caridade, e caridade não é vista com bons olhos por Deus, é como se você estivesse querendo enganá-lo.
Outro: (...)
Homem: Como detesto tudo isso! (Pausa) Mas tem uma vantagem, pegue o trem e seja livre de seus pecados: todo mendigo sujo que aparece, sempre com o mesmo discurso, te abençoa, você dando dinheiro ou não.
Outro: (...)
Homem: O trem... Poderia escrever uma tese sobre um dia no trem, por que não uma monografia? Peguei-o poucas vezes mas já pude notar o quão ridículas são as pessoas que andam de trem. Que vidinha medíocre... Tenho de descer aqui.
Por Filipe Dias
Escrito por Filipe Dias às 13h39
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